Fernanda Montenegro, premiada como melhor atriz na 22ª edição do prêmio Shell de teatro de São Paulo por sua atuação no monólogo "Viver sem tempos mortos", se disse surpresa com o prêmio, em entrevista à rádio Bandeirantes.
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- Aos 80 anos deverÃamos ser remidos e a premiação deveria se voltar aos mais jovens, que estão vindo com um talento imenso e necessitam deste reconhecimento. Graças a Deus o teatro se renova. Existe ainda uma devoção ao teatro que é comovente - declarou a atriz, que creditou sua vitória à "antiguidade". - Às vezes os anos contam. Não me acho nem melhor nem pior do que minhas amigas que concorreram comigo. Tenho uma galeria de prêmios e a gente sempre acha que depois desse não haverá nenhum outro, porque há novas gerações e novos trabalhos - declarou Fernanda, brincando que agora sua "galeria de prêmios está completa".
Após uma hiato de sete anos, Fernanda voltou ao teatro em "Viver sem tempos mortos" como Simone de Beauvoir, em um espetáculo austero e focado na interpretação, concebido pela prória atriz, que se baseou na troca de correspondências entre a filósofa francesa e seu marido, Jean-Paul Sartre, sob a direção de Felipe Hirsch.
- Toda a maneira de amar vale a pena. Nunca tive preconceiro com nenhum gênero, desde que a gente não se avilte. Tenho como norma que se experimente, especialmente no campo da interpretação. Todo trabalho é um aprendizado e um desafio de realização. É preciso dismistificar nossa profissão. É um ofÃcio e queremos fazê-lo bem, com domÃnio de seu instrumental. Todo o perÃodo de TV, de cinema, de teatro que eu tenha feito, mesmo que com textos menos nobres ou com direções menos extraordinárias, tudo isto serve. Mas o que me norteia é o teatro. Se eu faço TV, eu levo a sério como no teatro. No cinema, levo minha bagagem de teatro - afirmou a atriz, falando sobre a diferença entre atuar na TV, no teatro ou no cinema.
Fernanda revelou que é a primeira vez em que ganha um prêmio Shell em São Paulo.
- São Paulo é uma cidade que me recebe sempre muito bem. Não tinha na minha galeria de prêmios um Shell de SP. Quero agradecer a plateia paulista que é extraordinária. Tem uma pulsação que é arrebatadora, dá vontade de aplaudir quando acaba o espetáculo - completou.
Fernanda falou também sobre a dificuldade em obter recursos para produzir cultura no Brasil.
- Hoje a cultura brasileira está estatizada, temos que ir à Meca mesmo, à BasÃlica de São Pedro, fazer o pedido. Aà a cúria vai lá e diz se merece ou não, se está de acordo com as normas deste governo. A vida levou nos levou a bater na porta do governo. Durante 30 anos, para se fazer qualquer tipo de teatro no Brasil, do mais experimental ao mais complacente, Ãamos ao banco, nos endividávamos. Agora não se faz nada sem aprovação de uma comissão - avaliou a atriz.
Os anos de chumbo foram lembrados na entrevista, especialmente o atentado que Fernanda e seu marido, Fernando Torres, sofreram em
em 1979, por parte de um grupo paramilitar que atuava com a conivência do regime militar.
- Todos nós passamos por censuras que nos arruinavam. Havia a censura do texto e, se este fosse aprovado, do espetáculo. Era um desespero, porque muitas vezes ficamos a pão e laranja sem saber para onde ir. Mas sobrevivemos.
Fernada explicou que não pôde vir a São Paulo receber o prêmio na noite desta segunda-feira porque passou a tarde em uma gravação de um institucional da OAB, "pedindo que o governo devolva os corpos dos contestadores do golpe militar que desapareceram, sofreram tortura".
- Espero que as famÃlias que perderam seus entes queridos possam recebê-los de volta - pediu a atriz.
Com informações de O Globo
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